Especialista em saúde metabólica reforça a importância do acompanhamento médico no uso de caneta emagrecedora

Alerta da Anvisa para risco de pancreatite reforço os riscos do uso indevido de produtos falsificados
Campinas, 10 de fevereiro de 2026 – O alerta emitido nesta semana pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre o uso de canetas para tratamento de obesidade e diabetes sem prescrição ou acompanhamento médico, após o aumento de notificações de casos suspeitos de pancreatite associados a esses medicamentos no Brasil, reforça a importância do acompanhamento médico durante o tratamento, bem como evitar o uso de produtos falsificados.
O alerta foi divulgado após repercussão internacional de dados do Reino Unido, onde a agência reguladora local confirmou 19 mortes associadas ao uso de medicamentos da mesma classe farmacológica. No Brasil, seis mortes por pancreatite necrosante atribuídas ao uso indevido de canetas estão sob análise.
A pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão essencial para a digestão e para o controle da glicose no sangue. Em quadros agudos, as enzimas digestivas passam a lesar o próprio órgão, causando dor abdominal intensa, náuseas, vômitos e, em casos mais graves, falência de múltiplos órgãos e risco de morte. A condição já está descrita em bula como reação adversa possível dos agonistas do GLP-1 e medicamentos relacionados.
“No Brasil, as notificações citam medicamentos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro. A Anvisa reforça, no entanto, que o fato de o nome comercial constar na notificação não significa, necessariamente, que o produto utilizado fosse original, já que há registros de canetas falsificadas ou manipuladas sendo comercializadas ilegalmente”, explica o médico George Mantese, especialista em saúde metabólica e acompanhamento clínico de pacientes com obesidade. “
“Segundo a Anvisa, o objetivo do alerta é evitar o uso desses medicamentos fora das indicações aprovadas em bula”, diz ele.
Atualmente, as canetas são autorizadas principalmente para o tratamento da obesidade e do diabetes, com exceções específicas, como o uso da semaglutida para redução de risco cardiovascular e da tirzepatida para apneia do sono. Qualquer outra indicação é considerada uso não aprovado.
Para Mantese, o alerta não significa que os medicamentos devam ser abandonados, mas evidencia a importância do uso responsável. “Esses remédios são ferramentas extremamente importantes e eficazes, com benefícios claros quando bem indicados. O problema começa quando são usados sem avaliação clínica adequada, sem investigação de fatores de risco e, principalmente, sem acompanhamento médico”, explica.
O médico destaca que o próprio perfil dos pacientes que utilizam essas medicações já envolve maior risco para pancreatite. “Diabetes, obesidade e dislipidemia são condições que, por si só, aumentam o risco de inflamação pancreática. Por isso, ainda não é possível afirmar se os casos suspeitos estão diretamente relacionados ao medicamento ou às doenças de base. É exatamente por isso que o acompanhamento médico é indispensável”, explica.
As empresas fabricantes também reforçaram que a pancreatite é um risco conhecido e descrito em bula. A Novo Nordisk, responsável por Ozempic e Saxenda, informou que há uma advertência de classe para terapias baseadas em incretinas e que pacientes devem ser orientados a interromper o tratamento diante de sintomas sugestivos. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, afirmou que monitora continuamente os dados de segurança e que a pancreatite aguda é classificada como reação adversa incomum.
“Autoridades sanitárias reforçam que, até o momento, não há recomendação para suspensão geral do uso das canetas. Os dados disponíveis indicam que os benefícios terapêuticos continuam superando os riscos quando os medicamentos são utilizados dentro das indicações aprovadas e com acompanhamento profissional adequado”, afirma Mantese.
“O que esse alerta deixa claro é que não existe atalho seguro em saúde. Uso sem indicação, sem avaliação clínica e, muitas vezes, com produtos de origem duvidosa transforma um tratamento eficaz em um risco desnecessário”, complementa.
